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v8a15| Tempos de viralizações: reflexões temporárias

Por João Felipe Gonçalves. Professor-doutor no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo, e coordenador do Grupo de Antropologia do Caribe Global (CANIBAL).


"A ruptura como retorno na pandemia". Fonte: https://br.pinterest.com/pin/55872851614686793/ Legenda acessível: Meme com um homem de terno, sentado, e escrito em inglês:

“Eu não quero me gabar mas, esse é tipo o décimo fim do mundo ao qual eu sobrevivi”


Para muita gente, em diferentes lugares do mundo, falar da Covid-19 significa falar de tempo. A atual pandemia tornou a temporalidade assunto privilegiado, a nível global, daquilo que Akhil Gupta (1995) chamou de “cultura pública”: a cultura compartilhada através de meios de comunicação em massa, na qual a internet e as redes sociais desempenham um papel cada vez maior. Dois tipos principais de formulações explícitas sobre a relação entre tempo e pandemia parecem dominar a cultura pública global: um salienta um tempo dilatado e indiferenciado, e outro um tempo de ruptura e mudança.

O primeiro tipo se refere sobretudo ao tempo vivido em quarentena, que é apresentado como abundante e uniforme. Numerosos memes sobre atividades esdrúxulas atribuídas a sujeitos fechados em casa disseminam a imagem de algo totalmente anômalo no capitalismo avançado: tempo livre de sobra. Já nas frequentes recomendações na imprensa e na internet sobre como usar esse tempo, percebe-se o medo de que isolamento gere uma temporalidade homogênea na qual “se troca a noite pelo dia” e “todos os dias são iguais”. Esse temor parece confirmar o argumento de Émile Durkheim de que são os movimentos regulares de concentração e dispersão social que geram a diferenciação temporal.

Se esse primeiro tipo de temporalidade diz respeito a um tempo experimentado, o segundo se refere a um tempo histórico. Em editoriais de jornais, discursos de chefes de estado, reportagens televisivas, entrevistas de historiadores, pronunciamentos de ex-ministros, textos de filósofos, comerciais de bancos, entre outros meios, aparece repetidamente a visão de que a atual pandemia significa uma grande ruptura histórica. Isso vem em diversas formulações: “tudo mudou”; “nada será como antes”; “temos um antes e um depois”; “um mundo diferente”; “o novo normal”. De modo mais dramático, a pandemia atual é às vezes apresentada – e nem sempre jocosamente – como uma ruptura escatológica, ou seja, como o fim do mundo.

A predominância do tema da “pandemia como ruptura” na cultura pública global atual não é de se surpreender. Como demonstrou Reinhart Koselleck (2004), a própria ideia moderna e ocidental de história – que, para bem ou para mal, tem uma presença privilegiada naquela cultura pública – é baseada na valorização cognitiva e normativa da ruptura em detrimento da continuidade e da repetição. A mudança e a novidade são tipicamente vistas no mundo contemporâneo não apenas como algo desejável – reivindicado por direitas e por esquerdas – mas também como a regra, o normal, o esperável. Os que vivemos no sistema capitalista estamos treinados para ver mudanças em toda parte, a toda hora. Quando afirmaram que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, Marx e Engels não apenas descreviam o capitalismo, como também expressavam um dos principais pressupostos culturais desse sistema.

Mas, a meu ver, a pandemia da Covid-19 estimula também duas outras temporalidades que, justamente devido a essa valorização da ruptura, são muito menos tematizadas explicitamente na cultura pública global atual. É para elas que quero chamar a atenção no resto deste ensaio.

A primeira delas diz respeito a retornos e repetições. Seu exemplo mais óbvio é a ansiedade pela “volta à normalidade” – manifesta tanto no desespero neoliberal por “reabrir a economia” quanto no esperançoso credo de que “a vida vai voltar ao normal”. Um outro retorno que marca a cultura pública de hoje é o da natureza: proliferam e celebram-se imagens de alegres golfinhos em Istambul, belos céus em São Paulo e límpidas águas na Baía de Manila. De forma menos bucólica, especialistas esmiúçam semelhanças entre a atual pandemia e tragédias passadas, como a Peste Negra e a gripe espanhola. Nas redes sociais, muitos usuários comentam que a quarentena lhes tem permitido e estimulado a remexer velhas fotografias e velhos objetos, que propiciam ataques de nostalgia compartilhados online. Futuros do passado também estão voltando, como nos memes que asseguram que o presente está cumprindo antigas profecias dos Simpsons e de filmes-catástrofe. Isso ainda exemplifica outro notável retorno: o de produtos mediáticos passados. Enquanto o Google ilustra suas páginas com velhos doodles, a televisão transmite reprises de telenovelas e eventos esportivos. Mesmo o fim do mundo, geralmente entendido como uma ruptura, é para alguns também um retorno: o de Jesus Cristo ou algum outro Messias.

Esses exemplos demonstram que a pandemia da Covid-19 tem suscitado na cultura pública, também uma temporalidade de repetições – que, segundo Edmund Leach (1961), é uma das formas elementares de representação cultural do tempo. A diferença entre essa temporalidade e as que salientei acima – a do tempo abundante e a da ruptura – é que tais variados retornos são raramente tematizados na cultura pública atual como uma forma temporal. Precisamente por causa da valorização da ruptura e da novidade, a temporalidade dos retornos é menos proclamada e menos desejada. Mas não é menos real.

A ênfase predominante na ruptura também esconde o outro tipo de temporalidade que quero destacar neste ensaio: a aceleração e generalização de tendências e processos anteriores. Para usar uma metáfora em si mesma viralizada, chamo essa temporalidade, que combina continuidade com potencialização, de “tempo de viralizações”.

Alguns dos fenômenos comum e estridentemente lidos como grandes mudanças, por exemplo, são antes sinais do crescimento e da proliferação de elementos do quotidiano da classe média pré-pandemia: compras online, namoros online, séries online, reuniões online, notícias falsas online, comida entregue em casa, filmes assistidos em casa, teletrabalho em casa, etc. Não há nada de realmente novo nisso; há, sim, uma multiplicação rápida – ou seja, uma viralização – de sintomas anteriores. O mesmo pode ser dito do terrível viés racial e de classe da Covid-19. As mortes desproporcionais de negros e pobres na pandemia – bem como os concomitantes processos de acelerada precarização do trabalho e de multiplicação de casos de violência contra mulheres – não representam nenhuma ruptura: assinalam apenas a persistência e o incremento de velhas desigualdades e atrocidades.

Outra grande viralização atual é a de fronteiras. Como argumenta Paul Preciado (2020), a pandemia não apenas fortaleceu as fronteiras nacionais, como transformou em fronteiras as paredes de casas e apartamentos, e as próprias epidermes de milhões de pessoas. Muitos processos dentro das fronteiras nacionais também foram acelerados e potencializados pela pandemia: a política de atirar-para-matar nas Filipinas; o pânico moral e a violência islamofóbicos na Índia; a ofensiva autoritária e xenófoba na Hungria; o populismo neoliberal e o anticientificismo nas Américas. Esses exemplos de governos terrivelmente direitistas indicam algo que os transcende: na pandemia também se viralizam a biopolítica, a necropolítica e o antigo poder soberano dos estados-nação. Como antes, mas de forma potencializada, ser cidadão (ou súdito) de uma ou outra comunidade imaginada influencia fortemente a vida e a morte, a saúde e a doença das pessoas – mesmo neste mundo de pragas globais.

Referências:

GUPTA, Akhil. Blurred Boundaries: The Discourse of Corruption, the Culture of Politics, and the Imagined State. American Ethnologist, v. 22, n. 2 p. 375-402, 1995.

KOSELLECK, Reinhardt. Futures Past: On the Semantics of Historical Time. Nova York: Columbia University Press, 2004.

LEACH, Edmund. Two Essays Concerning the Symbolic Representation of Time. In: _________. Rethinking Anthropology. London: The Athlone Press, University of London, 1961. p. 124-136.

PRECIADO, Paul. Aprendiendo del virus. El País, 28 de março de 2020. Disponível em https://elpais.com/elpais/2020/03/27/opinion/1585316952_026489.html, consultado a 05 de maio de 2020.



Texto originalmente publicado em 23 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.

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