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v8a16| A pandemia e a propaganda potencialmente fascista

Por Patrícia da Silva Santos. Professora adjunta de sociologia na Universidade Federal do Pará (UFPA).


Imagem: Paul Klee. Übermut, 1939


Em meio à catástrofe pandêmica, surgem de todos os lados do espectro ideológico que não compactua com a direita radical, clamores racionais para que o presidente deixe de lado as disputas políticas e o negacionismo a fim de liderar o país, na tentativa de mitigar os efeitos de uma crise de proporções ainda incomensuráveis. Ouvidos moucos, Jair Bolsonaro segue sua cruzada anti científica contando com milicianos digitais que atuam no sentido de transformar a propaganda em “substância da política” (ADORNO, 2019, p. 24). Apelos éticos ao direito à dignidade humana não encontram qualquer ressonância. Os bolsonaristas não parecem preocupados em evitar a catástrofe, ao contrário, postam-nos, a todas e todos, à beira do precipício, em sua “fantasia de declínio” (Idem, p. 20).

Ler, durante a quarentena, a palestra pronunciada por Theodor W. Adorno, em 1967, acerca dos Aspectos do novo radicalismo de direita [Aspekte des neuen Rechts-radikalismus] despertou em mim duas sensações muito contraditórias, suscitadas por um único motivo: encontrar uma formulação teórica para o momento político e social que estamos vivendo tem algo de satisfação e de desespero – esse último, que se deve à confirmação do caráter potencialmente fascista do nosso contexto atual, supera a satisfação intelectual de ver ratificada a capacidade das ciências sociais de criar uma narrativa consistente para dizer o mundo, mesmo quando ele parece tão indizível. É certo que o presente histórico e geográfico é único e sua compreensão não pode ser delegada a terceiros; tal compreensão se configura ante nós, brasileiras e brasileiros, como tarefa urgente que ainda temos dificuldade de atender. Porém, talvez valha a pena o exercício de partir dos contornos gerais da atuação potencialmente fascista para remontarmos a articulação que se projeta entre portadores do bolsonarismo e a propaganda digital em torno da pandemia provocada pelo coronavírus.

Grosso modo, Adorno pensa os movimentos radicais da direita como chagas da democracia que não se realiza efetivamente, precisamente porque a tendência de concentração do capital segue como imperativo social central. Sujeitos que não se sentem inseridos, não enxergam nenhuma salvação para si mesmos, nem desejam uma salvação coletiva por meio de mudanças de base e transformam seu pavor no desejo pelo declínio do todo. Nisso, afetos individuais projetam-se em ódios sociais, por meio de um mecanismo que permanece subterrâneo.

Quando acompanhamos os pronunciamentos de Bolsonaro e a ressonância que encontram nas redes bolsonaristas, buscamos encontrar a racionalidade que os move e a dificuldade é frustrante. Talvez porque não exista uma racionalidade evidenciável, nem um cálculo político, por mais perverso que seja, que possa ser perseguido por explicações causais. O que existe é o plano típico da propaganda de extrema direita de manter a “audiência em ebulição” (idem, p. 36). A negação da gravidade da doença, as conspirações em torno da ideia de supernotificação das mortes, a rejeição dos dados científicos são todas estratégias irracionais cuja finalidade é simplesmente o arrebatamento das massas digitais.

Os tipos autoritários e manipuladores que operam as redes digitais bolsonaristas não possuem qualquer compromisso com a verdade, a ciência, os fatos. Mas sabem muito bem como colocar a perfeição da técnica em função de fins abstrusos (idem, p. 23). É sintomático que os meios técnicos de comunicação mais modernos sejam mobilizados na prática propagandística dos movimentos ultradireitistas. No caso contemporâneo, as redes sociais se oferecem como o meio por excelência para a veiculação de fake news, a agressividade extrema em relação aos portadores da ciência, a violência contra todos os que contrariam as inverdades defendidas por Bolsonaro.

Em suas “pedanterias pseudocientíficas” (idem, p. 45), os influenciadores digitais bolsonaristas adotam os truques típicos da propaganda ultradireitista. Apela-se ao concreto, com dados que não podem ser checados facilmente. No caso da discussão em torno do tratamento da covid-19, há a defesa de estratégias não comprovadas cientificamente, baseando-se apenas em critérios ideológicos. Os cientistas que, com base em pesquisas, chegam a conclusões não promissoras em relação ao medicamento defendido por Jair Bolsonaro e Donald Trump, sofrem todos os tipos de ataque digital. E há também aqui o apelo à estratégia de transformar todos os opositores no grande inimigo da direita extremista: o conceito de comunismo ressurge por toda a parte; ontem e hoje, os comunistas são a grande fantasia da projeção do pavor da direita radical.

Em 1967, Adorno já afirmava que o fato de o comunismo não se materializar em partido algum torna-o algo místico, abstrato, que pode ser mobilizado contra qualquer oponente. Por aqui, até o coronavírus já foi interpretado como uma desculpa para implantação do comunismo em escala global.

Todas essas fantasias mobilizam inúmeras pessoas revelando o grau da personalidade autoritária brasileira e a efetividade que a propaganda possui em promover a ebulição da audiência (RIBEIRO, 2020). Enquanto isso, também é sintomático que a morte – talvez o mais real de todos os fenômenos humanos – seja sistematicamente camuflada por esses movimentos radicais de direita. Os números são questionados; fala-se no enterro de caixões vazios; argumenta-se que os governadores abrem valas como forma de espalhar o pânico.

Diante dessa catástrofe social e política em meio à catástrofe sanitária, vale lembrar as palavras finais de Adorno na sua palestra de 1967. Elas consistem em um chamamento àqueles que não se rendem à propaganda da extrema direita mas observam, atônitos, seus desdobramentos. A esses cabe a saída do registro contemplativo, da resignação catastrófica e da obliteração como sujeitos políticos, pois “como essas coisas vão se desenvolver e a responsabilidade por isso, como elas seguirão, isso depende, em última instância, de nós” (ADORNO, 2019, p. 55).

Texto dedicado às/aos estudantes do Grupo de Estudos em Teoria Social da UFPA, que recusam a “relação contemplativa com a realidade”.


Originalmente publicado em 24 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.


Referências:

ADORNO, Theodor W. Aspekte des neuen Rechts-radikalismus [1967]. Berlin: Suhrkamp, 2019.

RIBEIRO, Márcio M. Nota Técnica 8. Monitor do debate público no meio digital, 01 de abril de 2020. Disponível em: https://www.monitordigital.org/wp-content/uploads/2020/04/NT8-pronunciamento-COVID19.pdf





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