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v8a2| Imagens que falam da pandemia

Por José Raimundo de Jesus Santos. Sociólogo, possui doutorado em Ciências Sociais pelo PPGCS/UFBA e é professor adjunto do CFP/UFRB.


Observar a nova realidade social é um exercício de reflexão e ponderação sobre as novas estéticas e novas fronteiras que emergem a partir das novas etiquetas sociais. Elas são impostas pelo distanciamento social de prevenção da propagação e contaminação pelo novo coronavírus.

Os padrões binários constituintes deste novo modelo civilizatório são traduzidos nas mais distintas linguagens. Aqui, iremos evidenciar a fotografia artística conceitual e o “meme”, manifestações cuja linguagem traduz os olhares e perspectivas diferenciadas dos seus criadores sobre o que estamos vivendo e que permitem aos intérpretes análises e construções epistemológicas sobre a imagem que se apresenta como forma de exposição da realidade.

Capturar imagens na internet e usá-las em textos e artigos é comum. Buscar entender o que fez com que aquela imagem ou “meme” tivesse propagação e reconhecimento, a partir de um conceito ou ideia, é um exercício de reflexão que agrega a linguagem sociológica com a linguagem imagética. Este ensaio, portanto, é um ponto de reflexão e construção do debate sobre o que se posta na internet. E o que entendemos sobre ela no contexto da pandemia.



Imagem 01. Meme capturado da internet. Autor desconhecido

A imagem 01 demonstra a forma como a sociedade se percebe imersa em uma nova estética global, usando máscaras e outros procedimentos de higienização e etiqueta social. Ela faz referência à irracionalidade para promover a reflexão. De forma metafórica, cria uma analogia entre o uso da máscara e o uso da focinheira, e permite observar a emergência de uma estética cotidiana imposta pelo comportamento de prevenção ao vírus.

Assim como a focinheira exerce o papel de disciplinar, vigiar e manter as distâncias daqueles que a usam, as máscaras exigem de cada indivíduo um conjunto de etiquetas que são cobradas em todos os espaços sociais. Nesses espaços, todos passam a disciplinar, a vigiar e manter distâncias com relação ao outro. Eles são motivados pela suspeita e dúvida, medo e desconfianças, cultivam um temor da morte e se assombram com a possibilidade de contaminação ou não com o vírus. Neste cenário, potencializam-se as violências e desigualdades. Racismo, sexismo, intolerância religiosa, preconceito de classe e origem se multiplicam nas redes sociais e ganham os espaços físicos das cidades. Disto tem-se que os cenários são desdobramentos das políticas de combate à disseminação e propagação do vírus, e têm produzido um modelo de política que implica na eliminação do outro. Esta necropolítica (MBEMBE, 2016; 2020), evidencia a voracidade com que os governos se preocupam com a economia em detrimento da vida dos seres humanos. Refrear esta voracidade e reduzir os lucros não faz parte do imaginário e do dicionário capitalista.

O rol da nova etiqueta social que se apresenta à humanidade determina que haja vigilância com relação aos que não estão no novo modelo. A versão humana 2020 requer máscaras e distanciamentos.



Imagem 02 – autoria de Kleyson Assis, disponibilizada pelo autor para esta publicação

A imagem 02 é de autoria do Prof. Dr. Kleyson Assis, fotógrafo e filósofo. Ela possibilita uma reflexão enigmática que resgata o passado e expressa a ausência do futuro. Demonstra como a gravura de Étienne Victor Arago, que representa uma mulher negra escravizada e condenada ao uso de uma máscara no séc. XVIII, pode ganhar novos contornos.

Na sua leitura, ele apresenta a gravura emoldurada em grades, que traduzem a condição diaspórica da mulher negra aprisionada e escravizada e, ao mesmo tempo, apresenta a ausência do ser na cadeira onde repousa a caneca. Aí, o passado traduz a condição social de existência da mulher negra na contemporaneidade e coloca em suspensão o futuro, incerto pelas ausências produzidas pela necropolítica, que vitimizam jovens negras e negros nas periferias dos grandes centros.

A imagem que resgata o passado para compreendermos o presente permite que os intérpretes observem que os usos das máscaras são múltiplos. E que no passado, não muito distante, amordaçou pessoas para demonstrar o poder do patriarcalismo escravocrata em controlar e impor regras de conduta e sobrevivência aos negros escravizados.

A subalternização das populações descendentes dos povos escravizados é evidente, e os binarismos da pandemia atuam com maior incidência sobre esses corpos, já estigmatizados e discriminados na sociedade.

A ausência do passado e a expectativa de que há um lugar vago à espera de alguém está presente na cadeira onde repousa a caneca. O gradeado que emoldura a gravura reúne habilidades de serralheria e, ao mesmo tempo, atribui significado à imagem, comumente apresentada sem molduras, solta no ar e, consequentemente, sem raízes e histórias.

As duas imagens são produtos de visões de mundo e sobre a pandemia. Em comum, estão alojadas na internet e representam leituras distintas sobre a condição de existência de homens e mulheres. O uso da máscara é de grande importância para a preservação da vida neste momento de pandemia, isso é indiscutível. Mas as distinções e binarismos que impedem deslocamentos, estabelecem vigilâncias sobre os corpos, potencializam as desigualdades e reforçam uma estética, como modo de proceder dos indivíduos na vida cotidiana, atua de forma açodada sobre aqueles que estão à margem da sociedade.

Dessa relação binária entre ter ou não ter sido exposto ao vírus, ter ou não ter sido contaminado, ter ou não ter condições para preservação do emprego e das condições sanitárias e de higiene, implica na emergência de um novo modelo civilizatório, regido por uma vigilância sanitária que exercerá um disciplinamento sobre os corpos e controle sobre os deslocamentos, restringindo as formas de sociabilidade e inserção nos espaços sociais.

A reflexão que se faz necessária perpassa pelas restrições de deslocamentos e pela desconfiança e medo do vírus. A vacina, para além da cura, resgatará padrões deixados à margem durante a pandemia, mas, em si, fará surgir outro binarismo, ter ou não ter sido vacinado. Isso quer dizer que surgirão novos passaportes e que a empregabilidade, as relações sociais, o namoro, a amizade terão como parâmetro de confiabilidade a existência de anticorpos. A visão de mundo que emerge dessa pandemia desnuda elementos de uma necropolítica e de uma epistemologia focada nas relações de soberania, poder e vigilância dos corpos.


Referências: SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar? Tradução Sandra R Almeida, Marcos P Feitosa e André P Feitosa. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2018. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção e política da morte. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993 Folha de São Paulo. Pandemia democratizou poder de matar, diz autor da teoria da 'necropolítica'. Entrevista de Achille Mbembe a Diogo Bercito, em 30/03/2020, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica.shtml



Texto originalmente publicado em 15 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.



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