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v8a3| Religião e Covid-19: notas sobre Cristianismos

Por

Renata de Castro Menezes. Professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ, Pesquisadora Cientista do Nosso Estado, Faperj; bolsista produtividade do CNPq. Email: renata.menezes@mn.ufrj.br Lívia Reis Santos. Pesquisadora de pós-doutorado (PNPD/Capes) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. Email: liviareisa@gmail.com


Foto: Caroline M. de Melo Bottino. Etnografia em confinamento: projeção em bairro da região suburbana,

Rio de Janeiro, março de 2020.

Há um desafio imenso colocado para os/as cientistas sociais, o de interpretar, à luz de suas experiências de pesquisa acumuladas, a realidade inédita imposta pela Covid-19 e assim distinguir alguns fios de Ariadne no labirinto vertiginoso em que fomos lançados. Os/as que trabalham com a sub-área da religião (notadamente da Antropologia da Religião com foco no Cristianismo, como é nosso caso) também se sentem interpelados, pois uma série de fenômenos relacionados a esse campo de estudos se tornaram evidentes e se potencializaram a partir da pandemia. Devido a seu volume, o que pretendemos apresentar aqui é um registro impressionista de sua variedade, acompanhado de algumas problematizações. São fenômenos que embora surjam com força no caso brasileiro, possuem características comparáveis, ainda que com variações significativas, no cenário mundial.

É sintomático que, no início de abril, quando começávamos a rascunhar essas linhas, tenhamos encontrado na mesma tarde, em espaços virtuais distintos, três notícias em que religião e Covid-19 apareciam relacionadas, uma espécie de emblema do caráter transversal das questões religiosas na dinâmica da situação atual. A primeira, uma matéria da agência de notícias A-pública, postada na página do Facebook de um colega pesquisador da área, abordava as coalizões evangélicas que demandaram ao Presidente da República a manutenção das igrejas abertas durante o período de isolamento social, reconhecendo-as como um serviço essencial à população, e o apoio das lideranças evangélicas ao dia de jejum e oração convocado pelo Presidente no Domingo de Ramos. A segunda notícia veio do Portal G1 e versava sobre novas formas de comemoração da Semana Santa pela Igreja Católica no contexto da pandemia, evitando aglomerações. Após a divulgação ao vivo da benção Urbis et Orbis solitária do Papa Francisco, diretamente do Vaticano, cardeais e bispos começaram a dar tratos à criatividade para a produção de liturgias não-presenciais. E a terceira, uma mensagem de Whatsapp, com um link para um vídeo também postado no Facebook, que registrava o encontro de um grupo de católicos carismáticos com o Presidente às portas do Palácio da Alvorada, no qual os fiéis fizeram uma oração por ele e contra o comunismo.

Embora tratem de grupos religiosos diferentes, os temas das matérias têm pontos de contato. Primeiro, porque apontam o papel fundamental das lideranças religiosas – não apenas evangélicas – no apoio a Bolsonaro, muitas vezes contrapondo-se ao Estado como a instância de tomada de decisões sobre as medidas de prevenção durante a pandemia, isto é, aquelas defendidas pela OMS, pela grande maioria dos governos estaduais e eventualmente pelo Ministério da Saúde. Em segundo lugar, porque revelam a habilidade das igrejas em jogar com a ambivalência dos atos religiosos de seu repertório “clássico”, como jejuns e orações, e evidenciar sua dimensão política. Nesse sentido, orar, louvar e sacrificar são percebidos pelos cristãos como um esforço pessoal possível a ser feito em prol do bem comum neste momento de incertezas. Ao mesmo tempo, essas cerimônias nas quais se reza e sacrifica por algo, inclusive para que cientistas encontrem a cura, têm efeitos de sacralização que consagram velhas e novas lideranças religiosas.

Assim, se, por um lado, o imbricamento entre religião e política é evidente e debatido intensamente, a ciência desponta por outro como um personagem significativo dessa disputa. Ironicamente, a pandemia nos traz a possibilidade de atualizar um embate clássico do pensamento e da história ocidentais, aquele que opõe ciência e religião, e nosso desafio é não cair na armadilha iluminista de reificar essa oposição. Para isso, sem desconsiderar que há polarizações em jogo, também nos cabe pensar em combinações possíveis e em situações em que ambas se reforçam e se fortalecem.

Como pano de fundo, temos a controvérsia pública em torno do posicionamento negacionista de alguns líderes religiosos, que estaria na base da reivindicação pela abertura dos templos. O tom de denúncia que tomou conta dos jornais e da internet é legítimo se considerarmos as recomendações de distanciamento social da OMS, mas isso não significa que toda demanda por atividade religiosa seja por cultos com aglomeração. Temos que considerar que esses mesmos espaços realizam trabalhos de assistência social, apoio profissional e acolhimento que são fundamentais para enormes parcelas da população brasileira e que, tanto quanto as atividades espirituais, são parte constitutiva da vida religiosa. Acessar estes trabalhos – não apenas para receber, mas também para doar - não é trivial. Trata-se da manutenção de um vínculo que dissolve as fronteiras entre material e imaterial, ainda mais fundamental quando o sentimento público comum é o medo. No caso das populações mais pobres, tão representativas do segmento evangélico no país, um medo potencializado pela situação de desigualdade social enfrentada cotidianamente.

De fato, a imprevisibilidade sobre o futuro, agora intensificada, faz com que o pensamento religioso seja um modo possível de organizar e dar sentido ao mundo: estamos ameaçados por uma praga desconhecida que produzirá uma ruptura radical no tempo. Inevitavelmente, haverá um antes e um depois desta pandemia. Se para as pessoas, em geral, o período de isolamento tem sido encarado como uma provação e marcado por uma busca por bem-estar físico e emocional, é compreensível que pessoas religiosas mobilizem suas próprias referências e se disponham a compor correntes de oração e práticas de jejum em prol do bem-estar individual e coletivo, e isso não significa negar a ciência.

Um breve acompanhamento dos cultos e lives online de líderes de grandes igrejas, influencers espirituais e artistas gospel que incentivam o isolamento social, permitiu identificar que muitos cristãos compartilham uma enorme angústia em relação ao futuro e, justamente por isso, buscam manter algum vínculo religioso. Ao mesmo tempo, a pandemia evidenciou um movimento que já vinha sendo feito pelos fiéis, que é a possibilidade de existir enquanto cristão sem a necessidade de frequentar o espaço físico da igreja. Para além dos já conhecidos fenômenos de múltiplo pertencimento e “des-igrejização”, a multiplicação do acesso tecnológico e a difusão da internet permitiram a proliferação de formas alternativas de se viver o cristianismo. Em geral, são facilitadas pela mediação de redes sociais. Nesse caso, a incorporação da tecnologia tem ajudado a ampliar a heterogeneidade cristã.

Talvez a pergunta a ser feita seja: a quem interessa, no contexto atual, uma polarização entre religião e ciência? Há muito as pesquisas que tematizam religião e política nos ensinam sobre falsas oposições e há mais tempo ainda a antropologia demonstrou a proximidade entre pensamento científico, mágico e religioso. Devemos lembrar, ainda, que os próprios cristãos recorrem à ciência para legitimar suas pautas nas principais controvérsias públicas de que são parte, como no caso do aborto e da “cura gay”, por exemplo. Assim como mobilizam argumentos e práticas seculares na arena pública de debate, sobretudo na política institucional. Não seria diferente agora. Para o bem e para o mal, a fé cristã, neste momento, vem sendo vivenciada por lideranças e por fiéis de diferentes formas e é mais importante estarmos atentos aos horizontes de possibilidades ao invés de minimizar a complexidade dessa dinâmica.


Referências: BIRMAN, Patrícia. Religião e Espaço Público. São Paulo: Attar Editorial / CNPq / PRONEX, 2003. DUARTE, Luiz Fernando Dias et al. (Orgs.). Valores religiosos e legislação no Brasil: a tramitação de projetos de lei sobre temas morais controversos. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. MONTERO, Paula. Ritos católicos e ritos civis: a configuração da fala pública da igreja católica em dois atos em memória de Vladmir Herzog (1975/2015). Mana [online]. 2016, vol.22, n.3, pp.705-735. GIUMBELLI, Emerson. Símbolos Religiosos em Controvérsias. São Paulo: Terceiro Nome, 2014 SMITH, Jonathan Z. “Religion, Religions, Religious". In: Mark C. Taylor (ed.) Critical Terms for Religious Studies. Chicago, London: University of Chicago Press, 1998, p. 269-284. TAMBIAH, Stanley J. Magic, science, religion, and the scope of rationality. Cambridge : Cambridge University Press, 1995.


Sites: Matéria da A Pública: https://apublica.org/2020/04/o-lobby-dos-evangelicos-contra-o-fechamento-das-igrejas/ Matéria do G1: https://tinyurl.com/vy9d5x3 Vídeo do Facebook: https://www.youtube.com/watch?v=laomTbE13a0



Texto originalmente publicado em 15 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.

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