• antropoLÓGICAS

v8a7|Imóveis Compactos: a tendência que foi pega no contrapé pela pandemia

Por Fagner de Carvalho Rodrigues. Doutorando em Sociologia (UFPR), pesquisador do grupo de pesquisa e extensão “Sociologia e Políticas Públicas” (UFPR) e do Observatório das Metrópoles Núcleo Curitiba.


A cidade é um organismo vivo. É partindo desta afirmação, admitindo o metabolismo urbano como a expressão de relações sociais, econômicas, culturais, objetivas e abstratas, que se faz possível a compreensão do que é a cidade.

Como qualquer ser vivo, a cidade se expande e se contrai. Ao se expandir, o espaço e a estrutura urbana vão se transformando e se adaptando às demandas de moradia, serviços e estilos de vida. Com uma cidade cada vez mais dinâmica e densa, a habitação teve também que sofrer alterações. Alterações essas, colocadas pelas demandas do mercado imobiliário, especulações e tendências habitacionais.

Como a demanda por solo urbano muda frequentemente, dependendo, em última análise, do próprio processo de ocupação do espaço pela expansão do tecido urbano, o preço de determinada área deste espaço está sujeito a oscilações violentas, o que torna o mercado imobiliário essencialmente especulativo (SINGER, 1982). Em um contexto neoliberal, é natural que, para atender a esta demanda, o mercado se reinvente e crie novos produtos, novos conceitos e novas formas de habitação, a exemplo dos imóveis compactos.

De onde, então, vem a inspiração para se reinventar e atender um público cada vez mais independente, empoderado, smart?

Novas configurações familiares, casais sem filhos, pessoas que vivem sós ou em pequenas coletividades (estudantes e trabalhadores temporais), parecem compor uma resposta razoável para os fatores que inspiraram novas tendências habitacionais. No entanto, não podemos considerar menos importante o fato de que o mercado é movido pelo lucro.


Vista aérea de Curitiba - Foto: Luiz Costa/SMCS

Com a proposta de uma vida mais conectada, minimalista e supostamente sustentável, o viver na habitação urbana compacta tem seu preço: a transferência do espaço de sociabilidade privado, para o coletivo – áreas compartilhadas entre os moradores do condomínio –, como, também, as áreas públicas – ruas, praças, mercados, shoppings, teatros, etc.

No final da década de 1970, Jean Lojkine já apontava para os fatores que viriam a caracterizar duplamente a cidade capitalista. De acordo com ele (1979, p. 18), é a concentração crescente dos “meios de consumo coletivos” que vai, pouco a pouco, criar um modo de vida, necessidades sociais novas – o que se pôde chamar de “civilização urbana” - e o modo de aglomeração específico do conjunto dos meios de reprodução (do capital e da força de trabalho), que vai se tornar uma condição cada vez mais determinante do desenvolvimento econômico. Àquela altura, a demanda de solo urbano para fins de habitação, distinguia vantagens locacionais, determinadas principalmente pelo maior ou menor acesso a serviços urbanos, tais como transporte, serviços de água e esgoto, escola, comércio, telefone, etc., e pelo prestígio social da vizinhança. Este último fator decorre da tendência dos grupos mais ricos de se segregar do resto da sociedade e da aspiração dos membros da classe média de ascender socialmente (SINGER, 1982, p. 27).

O conceito de habitação foi passando por profundas transformações, decorrentes do modo de vida experimentado pela contemporaneidade. Novas formas de tecnologia, trabalho, sociabilidade e relações conjugais são decorrentes de uma nova forma de se posicionar diante da experiência do tempo.

Em julho de 2019, uma matéria* publicada no site do Diário Indústria e Comércio, trazia o seguinte título: “Apartamento compacto é tendência do mercado imobiliário para os próximos anos”. O conteúdo da matéria discorria sobre o sucesso das vendas de imóveis com áreas a partir de 16m2. De acordo com o diretor de uma incorporadora de Curitiba, responsável por empreendimentos de imóveis compactos, dentre as vantagens da aquisição deste tipo de imóvel, está a proximidade com comodidades. Ele cita: “geralmente, estes imóveis têm melhor localização e outras funcionalidades acessíveis, como centros comerciais, supermercados, transporte público, entre outros”. Ainda, projetando um cenário imobiliário futuro, o presidente-fundador da empresa de pesquisa de mercado, citado na mesma matéria, diz: “no futuro do imóvel, as áreas de convívio, inclusive as áreas de alimentação, serão para fora de casa” e complementa “com apartamentos pequenos, e até compartilhados, as pessoas gastam menos em condomínio e IPTU. Significa gastar mais com outras experiências que as pessoas consideram mais valiosas”.

O parágrafo anterior, sintetiza a percepção do mercado na redução espacial progressiva da habitação em 2019, e projeta a continuidade desta redução, reforçando o entendimento de uma tendência. Por medo da violência, as pessoas buscam os condomínios que oferecem uma série de serviços da rua: home office, restaurantes, lavanderia, academia. Vende-se estilo de vida, quando de fato barateia-se a habitação.

Hoje, cerca de 40 anos depois do que foi escrito por Jean Lojkine, poderíamos dizer que ele acertou na mosca! Os meios de consumo coletivos fazem parte do nosso dia-a-dia, a todo tempo somos seduzidos a experienciar novas sensações, compartilhar ambientes, a projetar nossa vida para fora da casa. Novos modos de vida estão postos: o minimalismo, o co-working e, porque não? Co-living!

Mas, houve um detalhe não previsto: uma pandemia que exigisse das pessoas o distanciamento social e a permanência em casa. Este é o cenário do primeiro semestre de 2020 no mundo todo. O vírus da COVID-19 se apresentou com alto potencial de contaminação e letalidade, o que levou as autoridades de saúde a adotarem medidas de isolamento social para tentar reduzir o número de contaminados e o colapso do sistema de saúde.

Frente a este cenário caótico, como respeitar as políticas de contenção do contágio pela COVID-19, quando se vive em um imóvel compacto, projetado para que o sujeito desfrute dos serviços externos à casa?

David Harvey escreveu recentemente acerca da explosão do COVID-19: “Comer fora não é uma boa ideia e os restaurantes e bares fecharam em muitos lugares. [...] Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, concertos, convenções empresariais e profissionais, e até reuniões políticas em torno de eleições foram cancelados. Estas formas de ‘consumismo experiencial baseado em eventos’ foram extintas” (HARVEY, 2020, p.20).

A pandemia da COVID-19 alerta para a insustentabilidade de um capitalismo que se denuncia por meio de sua fragilidade em momento de crise. O exemplo dos imóveis compactos é colocado, aqui, para ilustrar como um projeto de incentivo ao consumismo, travestido de “novo modo de vida”, é colocado em xeque frente a uma situação adversa que foge do ciclo de consumo normal capitalista. Harvey (2020, p. 20) evidencia que “grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais”.

Para além disso, o distanciamento e o isolamento social nos sugerem refletir acerca do modo como vivemos e contemplar um horizonte de possíveis outros modos de vida.



Referências:

*Apartamento compacto é tendência do mercado imobiliário. Disponível em: <https://www.diarioinduscom.com/apartamento-compacto-e-tendencia-do-mercado-imobiliario-para-os-proximos-anos/>. Acesso em: 04/05/2020.

HARVEY, D. Política anticapitalista em tempos de covid-19. In: DAVIS, M; et al: Coronavírus e a luta de classes. Ed. Terra sem Amos. 2020.

LOJKINE. J. O papel do estado na urbanização capitalista. In: FORTI, Reginaldo. Marxismo e urbanismo capitalista. São Paulo: Ed. Ciências Humanas. 1979.

SINGER, P. O uso do solo urbano na economia capitalista. In: MARICATO, E. A construção social da casa (e da cidade) no Brasil Industrial. Ed. Alfa-Omega. 2 ed. 1982.



Texto originalmente publicado em 17 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.

52 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES