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v2a46| Vida de Apartamento, experimentando etnografia e som

Atualizado: Jul 29

Por Rafael F. A. Bezzon. Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) | Pesquisador do Núcleo de Antropologia da Imagem e da Performance (NAIP).

Contato: rafaelbezzon@gmail.com


“Durante o dia inteiro o homem faz pequenos macetes inocentes;

(...) Talvez os momentos mais reais que a gente conheça

sejam aqueles em que se está sentado na privada (...)”

(Henry Miller, Sexus, p. 337)


“Vida de Apartamento”. São Paulo, 16 de abril de 2020. Fotografia do autor.

O antropólogo francês Michel Agier defende em um de seus livros (Encontros Etnográficos - contexto, interação, comparação, 2015), e concordo com ele, que “Não existe etnólogo sem uma partida, sem sair de casa e ir olhar o mundo [...]”. Em tempos de circulação controlada de pessoas, coisas e mercadorias, esse movimento de pesquisa, orientado por princípios como o de “Olhar, Ouvir e Escrever” - para lembrar os ensinamentos do antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira -, se mostra um tanto quanto complicado.

A atual imobilização, que não condiz com as temporalidades impostas pelo capitalismo contemporâneo, o confinamento age diretamente nos corpos, transformando a vida cotidiana. Além disso, ele é exercido pela linguagem e se torna palavra de ordem - “confinamento”, “isolamento social” - (re)orientando nossa realidade.

E, como tal, gera efeitos imediatos em nossa percepção: ante os espaços em que vivemos, nossos hábitos diários, as coisas e objetos com o qual nos relacionamos, nossos pequenos trajetos e hábitos cotidianos. Para entendermos o que se passa, seus afetos e efeitos na vida cotidiana, penso que é necessário (re)adaptar nossa percepção para as pequenas - às vezes imensas - temporalidades diárias da escala diminuta deste tempo novo.

Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira, o trabalho de pesquisa de qualquer antropólogo é construído por atos cognitivos que são “domesticados” através das teorias e das experiências vividas que os (re)orientam. Neste momento, a percepção - que pode ser entendida de maneira simples como a forma pela qual traduzimos as experiências em conhecimentos - se mostra uma aliada importante enquanto instrumento do conhecimento para pensarmos as vivências polifônicas do cotidiano.

Se o que se passa é uma transformação nas escalas das partidas, nos voltamos para nossas rotinas e seus pequenos macetes inocentes (como lembrado por Henry Miller), suas imagens, seus sons e silêncios, seus movimentos e pausas. Da infância a vida adulta, a maior parte do tempo experienciei uma vida de apartamento - apenas por uns anos, durante a graduação, morei em casas. Que há diferenças (de escala) nas formas de habitar, isso é visível nas nossas cidades, mas uma vida de apartamento tem suas próprias características.

A realização de pequenos trajetos, do quarto ao banheiro, de lá para a cozinha. Dali para a sala, uma espiada na varanda e de lá para a mesa de trabalho. De volta para a cozinha, depois idas ao banheiro, de volta para a sala. E, assim, segue o dia. Uma diferença interessante na vida de apartamento é a extensão da nossa visão. Daqui, se vê pelas janelas e varanda os vizinhos do prédio à frente, o acender e apagar das luzes, os banhos de sol nas varandas, os sons de suas rotinas: o tilintar de panelas, as músicas e as conversas.

As ruas estão escondidas. Os sons que vêm de lá nos permitem imaginar o que se passa. Há pássaros cantando, ou piando, não sei bem o que fazem. A popular “vapi” - lavadora de alta pressão - também canta. Há martelos, furadeiras, estampido de metais e as serras, que também ressoam nas construções. As motos, carros, ônibus e aviões - estamos próximos a um aeroporto - bastante populares na região, não se escutam. Nossos dias - pelo menos por aqui - são permeados por esses sons externos que confluem com o bater de dedos no teclado, os “cliques” do mouse, os eletrodomésticos e outros móveis que também se fazem ouvir em suas rotinas diárias.


Obs.: Pequeno experimento etnográfico sonoro: “Um itinerário na Vida de Apartamento”.

Link: https://soundcloud.com/rafael-bezzon/som-i-vida-de-apartamento-wav

São Paulo, 16 de abril de 2020.


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